Geanneti Tavares Salomon

27 de novembro de 2021.

É urgente voltarmos nosso pensamento para entendermos como podemos implementar uma moda brasileira, ética e regenerativa. Devemos estabelecer princípios, normas e regras comuns e que priorizem o bem-estar em nossa sociedade, a saúde física e mental, o cuidado pessoal e com o outro. E tudo isso tem a ver com a moda ética e regenerativa.

A moda brasileira sempre foi, majoritariamente, uma moda eurocêntrica, desacreditada de si, invejosa da criatividade dos nossos colegas europeus e norte-americanos. Poucos foram, e são, os designers capazes de escapar dessa fatídica sina: ter produtos que são cópias das tendências internacionais.

Poucos são capazes de não se curvar à preguiça criativa, rejeitando o que já está pronto, fórmulas antigas, para ir em busca de algo que represente melhor a sua essência, algo que lhe dê oportunidade de comunicar com seu público uma mensagem sua e não apenas ficar reproduzindo o que é dito/criado por outras marcas.

A grande “desculpa” para isso é que produzem o que o consumidor quer, concluindo que estes sempre desejaram usar as grandes marcas internacionais e, por isso, não há outro caminho, senão copiá-las. Deixo as perguntas: será que é isso mesmo? Será que nós, brasileiras e brasileiros, desejamos nos vestir como propõem as marcas internacionais? E se a resposta for mesmo positiva, qual será o motivo para isso? E quais são os caminhos para mudar isso?

Podemos especular algumas causas, mas entendo que maior delas é que designers e consumidores brasileiros se acostumaram com esse modelo de cópia e adaptação de tendências internacionais. Ficou cômodo para os designers. Um lugar fácil e confortável no qual não se torna necessário elaborar pesquisas criativas, investir em tecnologias, em mão de obra para a criação e elaboração de produtos autorais.

A causa maior para os nossos problemas internos referentes à moda é a falta de autoconhecimento enquanto nação, falta de orgulho de nossas origens indígenas e negras, de nossas misturas que engrandecem o que somos ao invés de nos diminuir. Falta aqui o olhar para dentro antes de olhar para fora. O brasileiro se esquece que, sendo local, se torna universal.

A moda autoral brasileira vem crescendo na última década, incentivada pela valorização da diversidade. Designers perceberam que há nichos não atendidos pelas marcas comerciais e, assim, uma chance de criar negócios novos. Na primeira década desse milênio era ainda um desejo de atender a públicos diferentes, mas agora, temos uma crise ambiental gravíssima para gerir. E os negócios de moda não poderão se abster. A moda autoral é o caminho mais efetivo para a sustentabilidade.

Há a necessidade de criar leis sérias que incentivem a indústria nacional, que sempre foi uma das únicas no planeta a contemplar todas as etapas da cadeia produtiva, desde a produção têxtil até a entrega do produto ao consumidor final. Mas isso não basta mais. É preciso criar medidas rigorosas para verificar se as leis criadas estão sendo cumpridas, como a Lei nº 12.305/10, Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), lei que regulamenta a forma com que o país gerencia seu lixo, tanto dos setores públicos quanto dos privados.

Uma breve visita aos polos de moda das cidades brasileiras, como Belo Horizonte, por exemplo, nos mostra que muitos resíduos têxteis continuam a ser colocados nas calçadas, que os caminhões de lixo continuam a levá-los para os depósitos, que o seu destino são os aterros sanitários, já superlotados com outros resíduos não reciclados.

Algumas marcas encaminham esses resíduos para comunidades e associações, mas essas atitudes, mesmo que louváveis e necessárias, não conseguem absorver toda a produção. Há também marcas que se empenham na hora do corte, visando o não desperdício. Mesmo assim, há uma grande sobra de resíduos de diversos tamanhos em todas as confecções.

Retalhos diversos, matéria-prima de boa qualidade cuja destinação acaba sendo os aterros sanitários.
Imagem produzida pela autora.

Enquanto isso, o fast fashion continua a se expandir. A moda autoral, que é mais sustentável, em parte por ser menos escalável, não dá conta de todas as demandas. Vê-la crescer é incrivelmente animador, mas ver que o fast fashion continua em vigor é decepcionante e os resultados são catastróficos. Esse cenário torna-se crítico num país em que a fome, a pobreza e a fragilidade da educação básica são grandes problemas sociais.

O Brasil é um dos maiores países do mundo e, em extensão territorial, só perde para a Rússia, Canadá, Estados Unidos e China. Somos um país imenso, com cinco grandes regiões: Norte, Nordeste, Sul, Sudeste e Centro-Oeste, todas com características que as tornam distintas. São vinte e seis estados, além do Distrito Federal, que compõem a República Federativa do Brasil. No Brasil está a grande floresta amazônica, de relevância mundial, um importante bioma para a conservação das espécies e da vida em todo o planeta.

Nesse vasto Brasil, muitas modas são possíveis, mas toda criação de moda deveria pautar-se na preservação e na regeneração de nossos recursos naturais, na valorização da mão de obra interna, na preservação de nossas memórias. A moda brasileira, ética e regenerativa deve ser um objetivo comum a todas as pessoas que trabalham com moda.

Em relação ao processo criativo de moda, tudo deveria ser matéria de inspiração para a criação e não somente o que ditam as passarelas internacionais. Além de temáticas diversas, as técnicas de reutilização de matérias-primas precisam ser divulgadas amplamente, promovendo um ciclo sem fim.

Afinal, o que é resíduo têxtil para uns é matéria-prima para outros!

Upcycling é a técnica que reutiliza criativamente produtos que iriam para o descarte.
Imagem produzida pela autora no Canva.com.

A técnica de upcycling já é desenvolvida mundialmente e tem sido empregada com muito sucesso no Brasil por várias marcas que produzem peças a partir do desmanche de outras peças prontas que não foram vendidas ou que já foram usadas e descartadas, até mesmo sob encomenda, modificando aquelas, dos próprios clientes, que possuem caráter afetivo. Há muita gente ensinando essas técnicas nas mídias sociais, basta acompanhar as hashtags #upcycling, #recycling, entre outras.

É evidente que há soluções. É preciso incentivar os consumidores a reduzir o seu consumo (isso mesmo! comprar com consciência), pesquisar por produtos elaborados com ética e sustentabilidade, uma real preocupação com a utilização de recursos naturais do nosso planeta.

É preciso exigir que as marcas criem condições reais de retorno dos produtos comprados por seus consumidores. Que estas marcas promovam o retorno de tudo aquilo que produzem para que possam novamente entrar no ciclo, como acontece na própria natureza: no caso das embalagens de xampu, por exemplo, deveria haver boxes nos pontos de venda para que pudéssemos devolvê-las às empresas fabricantes para sua reutilização. Isso deveria ser uma regra indiscutível, pois, se lucram com seus produtos devem ser responsáveis por eles.

E os consumidores também devem assumir a sua parte, exigindo e promovendo esse retorno dos produtos já utilizados.

Precisamos lutar por uma moda brasileira, ética e regenerativa.