21 Outubro 2020.

Se você gosta de assistir desfiles de moda, mas não entende muito bem o que se passa neles, este texto traz algumas dicas e exemplos sobre o que observar e como analisar um desfile de moda.

Vários tipos de público podem apreciar um desfile de moda, até mesmo aquele que não compra os produtos da marca. O desfile é um evento que tem como objetivo principal apresentar uma coleção de uma determinada temporada (outono/inverno, primavera/verão), mas é também um dos maiores e mais eficazes meios de difusão da moda.

Há alguns aspectos que podem ser observados para melhor compreendermos as diversas camadas de significação dos desfiles.

Conhecer o histórico da marca

Pode ajudar bastante na análise, porque um bom desfile traz a identidade da marca nos elementos estéticos da coleção. Os desfiles executados anteriormente colaboram para criar e manter essa identidade, o DNA da marca.

Observe o desfile de uma marca hoje e compare com o da temporada anterior, mesmo que uma seja verão e a outra inverno. Você poderá notar a presença de vários elementos nos quais se pode reconhecer a identidade da marca. Se isso não ocorrer, há um problema aí.

Os elementos de styling utilizados vão ser trabalhados de forma diferente nos dois desfiles porque visam atingir uma imagem de moda para aquela temporada, mas todos devem estar em sintonia com o DNA da marca para não haver erro.

Quem é o estilista/designer ou diretor criativo da marca?

Outro ponto importante ao analisar um desfile de moda é observar quem é o estilista/designer ou diretor criativo da marca. As marcas variam vez ou outra e o novo profissional trará alguma renovação em sua atuação. O estilo desse profissional certamente irá alterar de alguma forma a estética dos produtos da marca, sem deixar de se ater ao DNA da marca.

Como exemplo, em 2014, o grande costureiro John Galliano assumiu a direção criativa da Maison Margiela, marca controlada pela Only The Brave desde 2002, cujo presidente é Renzo Rosso. Galliano foi demitido da Dior em 2011 e retornou à indústria da moda como uma grande promessa de inovação para a Margiela. Por quê?

Há uma grande diferença conceitual entre ambos:

  • Martin Margiela, designer fundador da marca: extremamente reservado, com um estilo impactante e minimalista pautado na desconstrução.
  • John Galliano: teatral, dramático e apoteótico, pautado no romantismo.

No desfile da Maison Margiela, coleção criada por Martin Margiela em 2008, o minimalismo, a desconstrução e o ar soturno são os elementos estéticos marcantes do designer:

© firstVIEW
Desfile PARIS, INVERNO 2008 RTW MARTIN MARGIELA. © firstVIEW. Fonte: https://ffw.uol.com.br/desfiles/paris/inverno-2008-rtw/martin-margiela/684/colecao/12/

No desfile da Maison Margiela, coleção criada pela equipe de estilo da marca em 2010, já sem o Martin Margiela, a marca mantém a característica marcante da desconstrução, mas já é mais comercial do que as anteriores, como desejava o presidente da Only The Brave, Renzo Rosso, com a saída de Martin Margiela. Algo para se notar é o destaque dado ao rosto da modelo, o que era evitado pelo designer Martin Margiela, inclusive trabalhando o discurso do anonimato nas suas criações.

© Firstview
Desfile PARIS, INVERNO 2010 RTW MARTIN MARGIELA. © Firstview. Fonte: https://ffw.uol.com.br/desfiles/paris/inverno-2010-rtw/martin-margiela/510/colecao/16/

Já na coleção criada por John Galliano para a Maison Margiela 2019, note que o desejo de Rosso de uma coleção comercial passou longe. A verve de Galliano vai muito além do básico e comercial. Pode não agradar ao público, mas leva os críticos ao delírio. A proximidade com discursos artísticos é visível, como também era a criação de Martin Margiela. A desconstrução, o anonimato, a estranheza, esses elementos estéticos estão no processo criativo dos dois designers.

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Desfile PARIS, INVERNO 2019 HC MAISON MARGIELA. Fotos: Reprodução. Fonte: https://ffw.uol.com.br/desfiles/paris/inverno-2019-hc/maison-margiela/1706118/colecao/9/

A análise das imagens deixa transparecer que o DNA da marca foi mantido, mas as alterações estéticas variam em potência, de acordo com a direção criativa.

Curiosidade: Martin Margiela não fazia a entrada final nos desfiles, em agradecimento, e John Galliano também não o faz, como pode ser observado nos desfiles da Maison Margiela.

Analise o desfile observando os seus blocos

O stylist é o profissional responsável por criar a imagem de moda do desfile. Esse profissional edita os looks criados pela marca e estes looks editados são apresentados em blocos.

Os blocos trazem variações dentro da coleção que podem se relacionar às ocasiões de uso, às cores, padrões da temporada, e também a aspectos conceituais da coleção. Os looks iniciais buscam extasiar o espectador, tirar a sua respiração, da mesma forma que os finais. É muito comum que o desfile inicie com looks mais descontraídos indo numa gradação para os looks mais formais, mas não é uma regra.

Ao analisar um desfile de moda também pode-se levar em consideração o uso de repetições para identificar os blocos: mesmos materiais, silhuetas semelhantes, composição de cores, acessórios e até mesmo detalhes da beleza (make e cabelo).

Também é comum haver um “looks de passagem”, isto é um (ou mais) looks que contam pra gente que vai vir algo diferente, que uma mudança está para acontecer. Afinal, você já deve saber nesse ponto que um desfile criativo tem que trazer uma narrativa, tem que contar uma história.

Veja o desfile da Balmain e tente entender qual é a narrativa que está sendo contada ali.

Desfile BALMAIN SPRING/SUMMER 2021 RUNWAY. Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=p49HbjuX9fw&feature=emb_logo

Há uma resenha do desfile feita por Luke Leith, aqui.

Os elementos de styling de um desfile

Alguns elementos de styling são o conceito, a trilha sonora, a escolha do casting, o uso das cores, a iluminação, a edição dos looks e devem ser observados ao analisar um desfile de moda. O stylist vai trabalhar esses elementos para criar uma imagem de moda para o desfile.

No desfile da Balmain, observe os elementos de styling e como eles funcionam para contar essa narrativa!

Os tipos de desfiles

Há uma classificação para os tipos (formatos e gêneros) de desfile que pode variar um pouco de acordo com os autores. Também é importante dizer que podem se sobrepor em determinados eventos.

Na classificação de Vilaseca (2011), que é baseada na tipologia de Marta Camps em seu ensaio Os elementos de um desfile, o formato do desfile a ser elaborado pela marca indica quais são seus objetivos na divulgação da coleção:

  • Desfiles de imprensa
  • Desfiles de alta-costura
  • Desfiles de prêt-à-porter
  • Desfiles de salão
  • Desfiles de celebridades
  • Desfiles audiovisuais
  • Desfiles virtuais

O gênero indica o estilo da marca, do designer criador, da coleção que será apresentada. Essa é a classificação por gêneros indicada por Vilaseca (2011):

  • Desfile clássico
  • Desfile teatral
  • Desfile conceitual

Ginger Gregg Dugan (2002) traz uma classificação por gênero em seu ensaio relacionando o desfile com as artes performáticas. Sua classificação indica os seguintes gêneros:

  • Espetáculo: relacionados aos espetáculos teatrais, óperas, cinema, vídeos musicais. Ex: Alexander McQueen.
  • Substância: relacionados à performance, mas evidenciam mais o processo do que o produto. Ex: Viktor & Rolf.
  • Ciência: relacionados ao uso de tecnologias, seja em tecidos ou técnicas de construção das roupas, assim, “os designers científicos enfatizam a função do tecido e da roupa”. Ex: Issey Miyake.
  • Estrutura: relacionados à sua abordagem da forma e não da função. Ex: Martin Margiela.
  • Afirmação: relacionados a uma inspiração política como nos desfiles da década de 1970. Ex: Imitation of Christ.

Para um mergulho na teoria

Indico algumas leituras fundamentais para quem deseja analisar um desfile de moda:

  • DUGGAN, Ginger Gregg. “O maior espetáculo da terra: os desfiles de moda contemporânea e sua relação com a arte performática”. In: Fashion theory – a revista da moda, corpo e cultura. São Paulo, Editora Anhembi Morumbi, vol. 1, no 2, pp. 2-30, jun 2002.
  • EVANS, Caroline. “O espetáculo encantado”. In: Fashion theory – a revista da moda, corpo e cultura. São Paulo, Editora Anhembi Morumbi, vol. 1, no 2, pp.31-68 , jun. 2002.
  • FAÇANHA, Astrid; MESQUITA, Cristiane (org). Styling e criação de imagem de moda. São Paulo: Ed. Senac, 2012.
  • VILASECA, Estel. Como fazer um desfile de moda. São Paulo: Senac São Paulo, 2011.

Boa leitura!