28 Agosto 2020.

A Biblioteca Nacional possui um acervo riquíssimo de periódicos, todos digitalizados em alta resolução. Você pode optar por escolher um período determinado, pode navegar pelos vários anos e números disponíveis, pode se perder na leitura dos textos! Foi o que me levou a pensar sobre a tradução, a imagem e a representação.

Para quem pesquisa e precisa baixar os arquivos em alta resolução a dica de ouro é selecionar a dimensão 100% na barra de miniaturas. Assim, o arquivo é descarregado em 300 dpi, qualidade essencial para uma imagem ser publicada em livro, ter boa nitidez.

Ando pesquisando nesse acervo porque estou revisando um livro meu, o Moda e ironia em Dom Casmurro, publicado pela querida e excelente Editora Alameda, em 2010, que foi traduzido em língua inglesa e está “no prelo” para publicação pela Peter Lang Publishing Group.

Quando escrevi minha dissertação (Mestrado em Literaturas de língua portuguesa, em 2007, na PUC Minas), que resultou no livro, eu usei algumas imagens sem a preocupação de que fossem nacionais. Naquele momento, eu confesso, a palavra como imagem é o que mais me importava, afinal, eu buscava demonstrar na minha pesquisa que o descritivo de moda possui a potência da imagem mental, capaz de fazer o leitor criar mentalmente com detalhes a personagem descrita pelo autor, e tudo isso sendo utilizado pelo autor como estratégia de criação literária. A descrição da moda na literatura e as imagens que eram criadas na mente de cada leitor não podiam ser apreendidas em uma imagem ilustrativa.

Lembro-me também que apresentei a pesquisa já concluída em um evento acadêmico de moda e ouvi uma pergunta sobre as imagens do texto, por que eu havia usado tão poucas?! Na época eu respondi que nem iria usá-las, que elas estavam lá muito mais para inspirar o leitor/leitora do que para representar algo.

Para a publicação da tradução eu desejei imagens representativas; não representativas das personagens da narrativa, mas dos hábitos e costumes do Brasil (que tinham forte influência francesa e inglesa), de como nós vivemos e o que usamos no século XIX, afinal, é uma edição em língua inglesa.

A narrativa de Dom Casmurro permite deduzir que o tempo histórico se passa entre 1857 e 1872. Então fui buscar imagens que trouxessem o espírito desse tempo, e não foi tarefa fácil encontrar imagens de boa qualidade, em domínio público ou que estivessem ao alcance para uma autorização.

Juro que tive que tentar não me distrair muito (já avisando que foi impossível!), porque achei diversos periódicos interessantes na Biblioteca Nacional Digital, com crônicas, poesias, charges, ilustrações de vestuário, moldes e uma infinidade de assuntos. Em meio a algumas pesquisas, numa página do periódico Semana Ilustrada, encontrei o seguinte trecho:

“As mulheres magras e mal feitas inventaram as saias de crina [saias de crinolina] e posteriormente os balões de aço, que dão ao corpo proporções exageradas e disseram: ‘é da moda.’ Aquelas que a natureza fez belas e perfeitas disseram: ‘é a moda’ e consentiram em ocultar suas encantadoras formas debaixo dos aros de um ridículo balão.

Agora bonitas e feias são iguais: todas as mulheres parecem feitas da mesma forma.

As mulheres pequenas inventaram os sapatos com grandes tacões [sapatos de saltos, um erro histórico, pois quem inventou foi um homem] e os penteados tão altos que as caras parecem estar colocadas no meio do corpo, e disseram: ‘é a moda’. ‘É a moda!’, repetiram suspirando as outras mais altas, que, empregando os mesmos expedientes, já não são mulheres, são tambores móres [um tambor mesmo, enorme].

As mulheres que têm pés grandes e chatos ou tortos, disseram: ‘devemos ocultar nossos pés; mas será também prudente ocultar os pés pequenos e bem talhados.’ Imaginaram, então, os vestidos compridos e de cauda. Todas as mulheres que tinham pés de sylpho [na mitologia, é uma mulher delicada, um gênio do ar] exclamaram: ‘Que pena! Mas é a moda… E adotaram os vestidos que lambem o chão.

Se elas soubesses quanto pode um pé mimoso! Mas o sexo chamado fraco [!] tem a coragem de sacrificar tudo aos caprichos da moda, por mais extravagante que ela seja. (…)

Agora ou todas as mulheres são perfeitas ou imperfeitas, porque saem todas da mesma forma.”

(Biblioteca Nacional Digital. SEMANA ILUSTRADA/RJ, 1861, Edição 00021, p. 03. Domínio público.

Você, leitor ou leitora que teve a paciência de chegar até aqui deve estar pensando, mas hoje já não é mais como nesse tempo, hoje vestimos o que queremos. Isso é verdade até certo ponto, porque nós continuamos a nos comparar e a criar novos modelos, padrões que todos devem seguir. A saia de crinolina foi padrão no século XIX e depois dela vários outros padrões diferentes foram criados.

A armação de crinolina foi usada no Brasil até meados da década de 1870, quando o volume das saias começou a ser alterado.
Fonte: Biblioteca Nacional Digital. Jornal das famílias / RJ. 1866. Edição 00005. Domínio público.
No final do século XIX o volume das saias foi reduzido, passando a formar a silhueta em S.
Fonte: Biblioteca Nacional Digital. A Mulher: Periodico Illustrado de Litteratura e Bellas-Artes (Nova Iorque, EUA). Ano 1881\Edição 00002. Domínio público.

Hoje, quem é usuário das redes sociais já percebeu que, com muita frequência, há conteúdos sobre a padronização de corpos. O fato é que nós retiramos/descartamos um padrão para criarmos outro, ou ainda, junto com a mudança do sistema da moda, que de substituição passou a ser de sobreposição, também sobrepomos padrões que são polarizados, uns são “melhores” do que outros.

Há diversos exemplos de como procuramos nos rebelar contra a massificação das formas, a padronização em geral, e também de como seguimos padrões pelo desejo de fazer parte desse todo aparentemente harmonioso que é a sociedade. É muito ambígua essa relação. E por isso é muito difícil de ser modificada.

Apesar da pretensa anacronia, é possível sim fazer paralelos entre a crônica da Semana Ilustrada, de 1861, e a ideia contrária à padronização. Quero ressaltar é que essa ideia está SEMPRE em discussão, ela é sempre pauta de muitas pessoas, mas não de todas. Para a parcela que se sente representada pelos padrões a situação fica confortável.

Como podemos mudar isso mais rapidamente, já que causa tanto sofrimento à grande maioria das pessoas que não consegue seguir os padrões estabelecidos e não se sente representada?

Podemos nos conscientizar dos motivos e tentar modificá-los, começando por nós mesmos. Esses motivos são de ordem imaterial e material, passando pelo nosso vazio existencial que nos faz estar sempre em busca de completude, desejo de individualidade x desejo de pertencimento (leia Zimmel) numa sociedade que valoriza a estética muito mais do que o intelectual e o espiritual, o jogo da moda e do capitalismo selvagem, o consumismo, a exploração das marcas, a inveja, a insatisfação, o desconhecimento de si, a solidão universal e tantas outras coisas…

Não há como culpar um aspecto da humanidade, trata-se de um conjunto. Então, devemos desistir e simplesmente aceitar essa conjuntura que está fadada ao eterno retorno? Essa pergunta se desdobra em muitas outras. Devemos buscar compreender o que se processa e tentar evitar o sofrimento pela impossibilidade da perfeição? Há alguma representação que complemente esse vazio?